Sobre a gravidade do momento
Fred Ghedini*
O momento está grávido de uma nova ditadura, cujo embrião está no útero de uma eleição carimbada pela ação da mídia comercial – golpista como sempre – com a participação descarada de um ministro do STF e a ajuda trumpista, também declarada, no governo dos EUA.
Basta analisar as “análises” que surgem na imprensa em geral, ajudadas pela atuação tíbia do presidente do Supremo e da ministra Carmem Lúcia que, em vez de se posicionarem claramente contra o representante do bolsonarismo no Supremo, preferem aparecer para a população como os “equilibrados”. Um falso equilíbrio, uma vez que o “supremo golpista”, no Supremo, é desmascarado e ameaça, com suas ações, levar ao descrédito público o próprio Tribunal.
Dino lutou bravamente e até o Gilmar Mendes, decano de tantas ações questionáveis em sua longa trajetória no STF, colocaram o dedo na ferida, sem falsos pruridos: André Mendonça, colocado no STF para fazer exatamente o que vem fazendo – continuar a ação golpista dentro da principal corte do país – atua de forma descarada para eleger Flávio Bolsonaro.

A farsa foi desmascarada. Mas ninguém, na mídia comercial e golpista do nosso país, destaca o fato. Para a mídia, a heroína é a ministra Carmen Lúcia, que escolheu ficar em cima do muro, junto com o presidente do Tribunal!
Pois sim. A gravidade do momento é que uma ala importante do Supremo age de forma canhestra, em parceria com o jornalismo comercial, tudo voltado a eleger Flávio Bolsonaro. Houve uma guinada no STF. Formou-se uma maioria entre golpistas e gente tolerante ao golpismo. E esse é o fato mais grave da conjuntura.
É uma conjuntura que exige de nós – todos nós que lutamos pela democracia – ações mais incisivas, mais focadas e firmes para derrotar, nas urnas, a tentativa golpista de continuidade do 8 de janeiro de 2023. Se isso não acontecer, voltaremos ao que foi estancado com a ação decisiva de Moraes e da maioria do STF, na condenação à tentativa do golpe, empurrados pelas manifestações de rua e mobilizações feitas na época.
Agora, em outro momento, o próprio Moraes foi pego com a boca na botija. Precisa se explicar e precisa ser julgado pelos pares pelos acertos com o finado Banco Master. O que não implica, de forma alguma, desfazer as decisões acertadas tomadas por ele e pela maioria do Supremo naqueles dias e nos meses que se seguiram, com as condenações dos golpistas.
Muito menos – e aqui está o x da questão – escamotear o papel do operador golpista no Supremo, juiz de araque, agindo de forma claramente parcial, levando para seu gabinete policiais envolvidos com as ações golpistas, valendo-se de podres selecionados em meio ao enorme lixão da extrema direita que é o escândalo do Master.
Ao atuar no contrato de sua esposa com o Master, Moraes deve explicações. Dificilmente serão explicações convincentes pois R$ 130 milhões é dinheiro demais para um contrato advocatício e, ainda mais, na defesa de um “bunker financeiro” da extrema direita, todo ele envolvido em falcatruas como o roubo descarado do dinheiro dos fundos de pensão dos funcionários públicos de vários estados, todos eles governados pela extrema-direita e pela direita.
Por fim – mas não menos importante – o golpismo tem, agora, o decidido apoio de uma potência externa para voltar, sob o manto de uma eleição em que manda mais o poder do dinheiro e da mentira. Conseguirão?
Temos poucos dias, mas é preciso que nesse período, utilizemos de todas as nossas forças para impedir que o golpismo, a venda a preços vis de nossas riquezas, e substituição da educação pública pela catequização fascista, o descaso com a saúde pública, o escancaramento dos espaços públicos de poder para o crime e, enfim, a ameaça de uma ditadura entreguista, voltem a dominar o país.
* Fred Ghedini é jornalista e integra a coordenação da RedeD e do Movimento Geração 68.
