Entre a Fé, o Voto e a Sobrevivência: os Territórios Periféricos em Disputa
Este ano é tenso e decisivo para as periferias. Os desafios não estão separados em caixinhas: eles se cruzam, se reforçam e disputam corações, mentes e necessidades concretas. O que está em jogo não é apenas a eleição, mas o cotidiano, a sobrevivência e o sentido de pertencimento nos territórios.

Nas periferias, eleição não é debate abstrato. Não se trata apenas de propostas ou programas de governo. É promessa de comida na mesa, segurança no caminho de casa, fé como amparo e pertencimento como proteção. Nesse cenário, a disputa eleitoral acontece em condições desiguais.
A desinformação circula com força, principalmente pelos grupos de WhatsApp, pelos cultos e pelas redes locais. O medo é usado como ferramenta política medo da violência, das drogas, da chamada “ameaça moral”. Soma-se a isso o cansaço profundo com a política institucional, expresso na frase repetida à exaustão: “ninguém nunca fez nada por nós”. Direitos coletivos acabam sendo trocados por favores imediatos, como uma cesta básica ou uma promessa individual. O risco é claro: a eleição deixa de ser sobre projeto de país e passa a ser sobre quem ocupa o vazio deixado pelo Estado.
A extrema direita compreendeu isso há mais tempo. Ela não chega aos territórios apenas em época de voto. Está presente no discurso da ordem, da punição, do “cidadão de bem”. Usa linguagem simples, direta, emocional. Se apresenta como quem “fala a verdade” contra elites, mídia e movimentos sociais, enquanto constrói uma narrativa que parece próxima, mas é profundamente excludente.
Essa presença cotidiana produz efeitos concretos: criminaliza movimentos populares e lideranças comunitárias, divide pobres contra pobres, naturaliza a violência policial e o encarceramento em massa, e se apropria de pautas periféricas sem qualquer compromisso real com direitos. A extrema direita ocupa o território onde a esquerda, muitas vezes, aparece apenas em campanha.
Nesse mesmo terreno atua o fundamentalismo religioso, que não deve ser confundido com a fé popular. Fé não é o problema. O problema é seu uso político autoritário. O púlpito vira palanque, a pobreza é moralizada “falta fé”, “falta caráter” e grupos inteiros passam a ser alvos preferenciais: mulheres, juventudes, população LGBTQIA+ e religiões de matriz africana. A política pública é substituída pela “ajuda espiritual”. A fé passa a explicar tudo, enquanto o direito vira pecado.
No centro dessa disputa está a juventude periférica. É ela o principal alvo dessa guerra simbólica. O que está em jogo não é apenas o futuro, mas a possibilidade de imaginar um futuro. Pertencimento, reconhecimento, identidade e voz são disputados todos os dias. A extrema direita e o fundamentalismo oferecem respostas simples para dores complexas, constroem um “nós” contra “eles” e oferecem disciplina, culpa e obediência como sentido de vida. O desafio é disputar esperança concreta, e não apenas discurso bonito.
Ao mesmo tempo, a organização popular está fragilizada. Coletivos estão cansados, com poucos recursos. A militância vive sobrecarregada, sob criminalização e vigilância constantes. O diálogo entre gerações se tornou mais difícil. Sem organização de base, o território fica aberto à captura, ocupado por quem oferece respostas rápidas e autoritárias para problemas estruturais.
Por isso, o grande desafio é disputar o cotidiano. Não basta disputar ideias em seminários ou redes sociais. A disputa acontece na conversa do ponto de ônibus, no grupo de WhatsApp da rua, na escola, na igreja, no bar, no campo de futebol. A linguagem precisa ser simples, direta e atravessada por afeto. Quem está presente no dia a dia constrói legitimidade.
Em síntese, os desafios das periferias neste ano são claros e urgentes: não perder a democracia justamente onde ela já é mais frágil; não permitir que o medo substitua o direito; não deixar a fé ser sequestrada pelo autoritarismo; e reencantar a política como ferramenta de vida digna, coletiva e possível.
Marli Condes, mulher negra, periférica
Defensora de Direitos Humanos
Co-fundadora do SP Lutas
Uma das coordenadoras da RedeD
